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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 157
Marina ficou petrificada. Eram marcas recentes, que tinham sido gravadas de forma cruel no seu coração. Inexplicavelmente, uma centelha de amotinação começou a apoderar-se de si. Pensaria por ventura que ela era um penso rápido que o curaria? Não iria juntar os pedacinhos do coração dele, tinha o seu próprio coração para cuidar.

Página 158
Pegou-lhe na mão e conduziu-a até ao seu peito, num gesto íntimo. Marina sentiu o bater desconcertado do seu coração que parecia ter desaprendido o ritmo correto. Espantada, estudou-o. Encontrou uns olhos meigos, ansiosos, e uma boca carnuda entreaberta, escondendo uma respiração ofegante. Ter aquele pedaço de Céu quase a rogar-lhe que o beijasse era o sonho de qualquer rapariga. Sentia-se tentada, mas por ter cedido, Eva tinha conseguido um passe para fora do Éden. Inspirou morosamente, tentando controlar-se.

sábado, 31 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 152
Outro sentido? Que proposta mítica se seguiria? Duendes, fadas, lobisomens, fantasmas, extraterrestres? Ou projetos secretos governamentais, bem ao estilo de uma conspiração americana? Ana era deveras criativa, pelo que Marina achou melhor preparar-se. Ajeitou-se no banco e pôs uma máscara de seriedade.

Página 153
A voz de Joshua pareceu-lhes muito longe quando lhes chegou aos ouvidos sob a forma de uma harmoniosa melodia. Abriram os olhos com preguiça, rendendo-se aos seus encantos. Avistar um Joshua resplandecente com o sol a incidir nele, criando uma aura mágica em torno da sua silhueta, era uma visão de cortar a respiração. A sua pele cintilava, o cabelo parecia fundir-se com os raios de luz e todo ele transparecia perfeição, como se fosse a obra-prima esculpida pelo melhor artista de todos os tempos. Ana agarrou-se àquela imagem maravilhosa e sussurrou, entaramelada:
- Uau! Pareces um deus grego. Morri, fui para o Céu dos tipos jeitosos e conheci o melhor de todos…

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"


Página 134
Seria possível que mais ninguém visse aquele tipo para além dela e do amigo? Ele movia-se a grande velocidade, como se fosse feito de ar, e nunca estava quieto no mesmo sítio por muito tempo, pelo que era difícil segui-lo. Era como se estivesse a espiá-la, à espera que caísse na armadilha que lhe preparara, e ninguém se dava conta, pois era invisível para eles.

Página 135
Se lhe perguntassem no que estava a pensar, Marina teria respondido “em nada”. Era como se tudo se tivesse apagado. Não havia passado, presente ou futuro. Era uma tábua rasa, uma folha à espera de ser rabiscada.

domingo, 25 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 132
Se um olhar matasse, Lucas teria caído redondo no chão. Contudo, Lucas não se deixava intimidar com facilidade, pelo que retribuiu o olhar quase com a mesma intensidade.

Página 132
- Não tenhas medo. Sabes que nunca te deixaria ir ao fundo.
Marina estremeceu. Sentiu cada palavra a pulsar no seu íntimo à medida que as apreendia. Desviou bruscamente a cara para poder fitá-lo bem nos olhos. Por breves instantes, foi como se tivessem sido transportados para um universo particular, cuja única forma de vida se resumia a eles. Nada mais existia. Tudo se remetera à sua insignificância perante a importância daquelas palavras que valiam mais do que ouro. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 131

Ao ver a água cada vez mais perto, os pés de Marina transformaram-se em chumbo; estava praticamente a arrojá-los pelo cais. Embora tentasse controlar-se com respirações curtas e rápidas, o medo que sentia era gigantesco. Duas lágrimas grossas caíram-lhe dos olhos. Estacou e tentou fundir-se com a madeira do cais para não sair dali.

domingo, 18 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"


Página 129

Inesperadamente, ao alcançar o parque infantil no final do Parque dos Pescadores, foi forçada a agarrar-se com as duas mãos à rede que o contornava. Estava branca como a cal e o estômago retorcia-se mais do que uma máquina de lavar em plena centrifugação. Ver a água ali tão perto, e sem qualquer barreira entre elas, estava a fazê-la entrar em parafuso. Marina fixou o chão e respirou fundo. “Porquê, se estava tudo a correr de feição até aqui?”, perguntou-se. Era como se estivesse bem e, de repente, tivesse tido uma devastadora quebra de tensão.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"


Página 123

De volta ao quarto, vestiu-se e mirou-se ao espelho. Tinha olheiras bem demarcadas, revelando o quão má tinha sido a sua noite. Tentou ter pensamentos felizes e ver o lado positivo das coisas para se animar, mas só lhe ocorriam coisas obscuras. Tentou dizer a si mesma que tudo iria correr bem se acreditasse nisso. Contudo, o seu pálido reflexo fazia-a duvidar de si mesma.

domingo, 28 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 116
Se achava que as coisas não podiam tornar-se mais ingratas, enganou-se: a sala de Desenho ficava ao lado da da oficina de Design. Joshua e Lucas estavam encostados à porta da respetiva sala e trocavam olhares faiscantes, que faziam o ar vibrar. Marina contemplou o cenário: ali estavam dois caminhos distintos que podia seguir. No entanto, ao optar por um sabia que teria de renegar o outro por serem inconciliáveis. Mas porque tinha de escolher? Queria aproximar-se de Lucas e que este lhe contasse o que se passava, e queria também ser amiga de Joshua. Era assim tão difícil conseguir isso? Era bom que pudessem ser todos amigos. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 108

Sentou-se à porta da escola. Estava cansada. O dia tinha sido esgotante em termos psicológicos, com demasiados dramas para lidar em simultâneo. Esgotada, colocou a cabeça entre os joelhos e fechou olhos, fingindo estar noutro lugar bem mais divertido. Perdida na sua imaginação, só se deu conta de que o colega passara por ali por causa do grupo de raparigas que vinha atrás dele, aos gritinhos. Ele parou junto à outra porta, a dois metros de distância, e vestiu a camisola que tinha tirado por causa do calor. Estava em excelente forma; parecia um deus grego com a sua beleza etérea. Aquelas raparigas tinham razão em segui-lo. Mas o que estava a pensar? Estavam chateados, não podia elogiá-lo nem sequer em pensamento.

domingo, 21 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Pp. 101 e 102

Talvez a desanda que lhe tinha dado tivesse surtido algum efeito. O rapaz tinha auscultadores nos ouvidos e segurava um MP3. Embora duvidasse que ele conseguisse escutar alguma coisa para além de música, apercebeu-se logo da sua presença. Virou a cara disfarçadamente na sua direção e os seus lábios delinearam um sorriso daqueles bem picantes, tão característicos de si. Mas aquele tipo não sabia sorrir sem parecer estar a insinuar algo? Isso deixava-a pouco à vontade e atrapalhada. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"


Página 94
Queria colocar-lhe um milhão de perguntas, mas o seu alheamento desmotivante tentava-a a regressar para junto dos amigos. Era patético. Tinha chegado ali tão determinada e, de um segundo para o outro, tinha mudado de ideias. O problema era que a pergunta fulcral não parava de latejar-lhe na cabeça: quereria mesmo ouvir as explicações que ele lhe desse?

domingo, 14 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"

Página 93
No entanto, quando confrontada com as íris gélidas do rapaz, desistiu. Que diabo! Porque a fazia sentir-se assim? Pensou em remeter-se à insignificância que representava para ele. Algo, porém, gritou dentro de si que tinha de tentar de novo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 85
- Confias em mim?
Se fosse outro tipo de rapariga, teria achado aquilo tão fofo e romântico que ter-se-ia agarrado logo ao pescoço dele aos saltos e a gritar “sim”; conteve-se, porém. Confiar era uma palavra demasiado forte, conheciam-se apenas há dias. Mesmo assim, o seu espírito dizia-lhe que podia confiar nele e o tempo encarregar-se-ia de confirmar-lhe isso mesmo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"


Página 73
De súbito, os candeeiros da rua piscaram e ameaçaram apagar-se. Foi então que o viu, mesmo antes das luzes se irem abaixo na zona defronte da sua casa. Foram apenas escassos segundos, mas tinha a certeza de que era ele. Do outro lado da estrada, sentado na muralha, estava o colega. Marina colou estupidamente as mãos à janela, como que querendo alcançá-lo, e bateu com um punho no vidro para chamar a sua atenção. Porém, o jardim estava agora às escuras e não conseguia divisá-lo em lado nenhum. Tinha de falar com ele. Quem sabia quando voltaria a vê-lo? Mas ele não a ouvia dali…

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 59
Sem que nada o fizesse prever, ele atirou a mochila para o passeio e desatou a correr à chuva, saltando em todas as poças lamacentas que encontrava. Uma delas libertou toda a água em cima das pernas de Marina, que ficou retesada no mesmo lugar. O rapaz girava sobre si mesmo, de olhos fechados e braços abertos, recebendo as gotas na cara. A intempérie resolveu dar-lhe uma pequena ajuda na sua intenção de ficar encharcado e aumentou exponencialmente o nível de precipitação. Parecia uma cena de um filme: ele tinha a roupa colada ao corpo de tão ensopada, o que não o preocupava sequer, pois parecia feliz e perdido numa dimensão à parte.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 37

Aproximou-se devagar dela, de uma forma provocante e sedutora. Marina cambaleou até ficar encostada à parede e sem escapatória possível. Para garantir que ela não fugia, o rapaz colou as palmas das mãos à parede, à altura dos seus ombros, prendendo-a ali. Os seus corpos ficaram perigosamente próximos. Oh, não! Ele iria certamente aperceber-se da sua respiração entrecortada. E porquê? Porque se sentiria assim só de o ter por perto? Não lhe parecia ser boa pessoa, acreditava que era perigoso, mas o risco atraía-a com um poder irresistível.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Excerto| Citação "Perdidos"



Página 14

Lucas movia-se com lentidão por entre terra árida e vermelha, e vestia apenas umas calças de ganga presas por um cinto. O tronco nu e musculado era bafejado por um vento escaldante que lhe queimava a pele. Aparentando sentir-se cansado, sentou-se sobre umas rochas e ali se deixou ficar, fixando o vazio. Como não conseguia ver bem a cara de Lucas, Marina - que no sonho vestia apenas uma túnica branca feita de um tecido que dançava ao sabor da aragem quente - aproximou-se dele. Mal o rapaz levantou a vista do chão e o seu olhar encontrou o dela, Marina sentiu uma súbita falta de ar. Agarrou-se ao pescoço, implorando que o oxigénio voltasse. Com uma ânsia crescente, caiu de joelhos na terra estéril e estendeu o braço a Lucas, para que a ajudasse. Com calma, ele baixou o corpo na sua direção apenas para sussurrar-lhe ao ouvido: “Não fazes ideia do que te fazem aqui”.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Citação| Excerto "Perdidos"



Página 13

Naqueles milésimos de segundo em que parecia suspensa no ar, olhou para o céu e viu-o. Estaria a sonhar? Seria ele a sua última visão nesta vida? Porquê ele e não alguém importante, como a sua mãe? (…) A efémera sensação de flutuar deu lugar quase de imediato à falta de fôlego e à aflição da queda, que terminou num mergulho destrambelhado na água gelada. Enquanto o seu corpo teimava em descer até ao fundo do rio, não respondendo a nenhuma das suas ordens, Marina resolveu deixar-se ir. Era assim o seu fim, era assim que morria. Mais nada. Já estava.